farto-de-tolice-coluna

Hoje quando abri a porta, não vi a cama que sempre esteve na parede oposta. Estava dentro de um corredor estreito e muito comprido, inverossímil para este apartamento de 18 m². Lembro-me de estar sóbrio, havia saído do trabalho e fui pra casa sem escalas etílicas no caminho, mas os últimos meses têm sido tão surreais que Buñuel teria roteiro para uns bons oito filmes. Resolvi entrar, afinal aquela ainda era minha casa apesar do corredor desconhecido.

Nos primeiros passos notei alguns pingos de sangue seco ao redor de um dente amarelado e gasto. Era meu. Descobri ao passar a língua e sentir falta do primeiro pré-molar inferior. Já estava ali e decidi não retroceder, continuei sem medo, um passo atrás do outro e conforme avançava encontrava mais dentes meus pelo chão.

E conforme apareciam no chão, sumiam da minha boca. Foram os pré-molares, molares, incisivos e por fim os caninos. Pronto. Já não tinha mais dentes, mas o corredor continuava. Se isso era um preço por andar por ali, não tinha mais com o que pagar. E essa certeza de inadimplência fez com que seguisse despreocupado.

Passei a ver fotos penduradas pelas paredes. Pessoas, cidades, bares, bandas e tudo que vi nos últimos três anos estavam acompanhando minha passagem. Cronologicamente postadas, vi todas as mudanças de cabelo das pessoas, as reformas nas casas e a deterioração das cidades. Vi até o fim de longas amizades estampadas em fotos, que de tão reais, sentia até o cheiro das situações vividas.

Minha boca foi ficando seca, não sabia a distância percorrida e a nostalgia das imagens fez com que perdesse a noção completa do tempo. E depois de ver a fotografia da minha última viagem, cheguei ao fim do corredor. Estava de frente pra janela do conjugado e finalmente vi minha cama.

O corredor sumiu e percebi uma mulher morta sobre o colchão. Não consegui falar, pois não era minha boca que estava seca, no caminho das fotos perdi a língua. Esse foi o preço. Dizem que quando se tem alguma parte do corpo amputada, a sensação da existência da mesma permanece por um tempo. Às vezes essa sensação nunca passa. Talvez por isso que só dei conta da falta quando alguma situação exigiu uso.

Eu sei de quem era o corpo e sei que ela morreu de fome. Perdi tempo demais recolhendo os dentes no caminho, apenas olhando as fotos das pessoas, cidades e sentimentos envelhecendo que me esqueci dela ali.

Ela morreu de fome por perder o gosto pelo que era servido.

https://deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2015/09/farto-de-tolice-coluna2.jpghttps://deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2015/09/farto-de-tolice-coluna2-150x150.jpgIkie ArjonaCrônicas
Hoje quando abri a porta, não vi a cama que sempre esteve na parede oposta. Estava dentro de um corredor estreito e muito comprido, inverossímil para este apartamento de 18 m². Lembro-me de estar sóbrio, havia saído do trabalho e fui pra casa sem escalas etílicas no caminho, mas...