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Pois bem, outra semana em que deixei de publicar a coluna. E desta vez não foi por um motivo ruim como ocorreu anteriormente, apenas um feriado e uma viagem pra longe da chuvosa Porto Alegre destes últimos tempos.

O texto de hoje não é inédito, pois faz parte da coletânea As Coisas dos Outros que saiu em maio desse ano pela Coisa Edições. Contudo, a tiragem da edição está praticamente esgotada e muita gente não teve a oportunidade de ler e resolvi publicar um trecho neste espaço.

Semana que vem tem texto inédito.

Camilo Gorriarán e Sua Metáfora

Saí de casa ligeiramente atrasado por saber que não havia chances de vitória. Estava pronto. Que seja doloroso e sangrento. Dei-me ao trabalho de fazer bem a barba e tomar um banho sem pressa.

No saguão abri uma garrafa de água e fumei dois cigarros. Os últimos até o desembarque, os únicos que tinha.

Quando entrei naquele ônibus tive a certeza que estava tudo pronto para o fim. A atmosfera era pesada demais, sufocante a ponto de gerar uma ansiedade desmedida para completar o movimento natural de expiração. Sem perceber, segurava o ar dos pulmões por tempo demasiado e forçava o diafragma sem necessidade. Era um soluço abafado que me acompanharia pela próxima hora.

Segui indiferente aos que estavam nas poltronas ao redor. Só tinha em mente que precisava chegar vivo ao próximo estado, nem que fosse para morrer, o que era mais provável naquele momento.

Sem sustos e percalços segui viagem. Calado, alheio aos vultos apressados da estrada. Certo de que precisaria de um discurso impactante para cair com dignidade e em paz com minhas convicções.

O improviso só é fácil para quem treina bastante, sempre redigindo e apagando textos mentalmente. Testando a força de cada palavra e buscando um contraponto para cada ideia fixa que pareça irrefutável ao adversário. O importante é não se deixar ser surpreendido.

Nessa toada nem senti passar duas, cinco, sete horas do caminho. Mantive todas minhas forças concentradas em não ser pego desprevenido ao chegar a território desconhecido.

Bastou desembarcar e perceber que estava sozinho. Nenhum daqueles que fizeram votos de fidelidade e diziam resistir até o fim estavam presentes. Seria apenas eu e meu algoz.

Ajustei meu quepe e me pus à caminho da zona neutra, agora não havia mais volta. Respirei fundo e tentei abrir a boca para iniciar minha proposição e fui surpreendido pelo olhar de quem sabia que havia vencido.

Não consegui dizer que estava rendido, pois já estava morto.

Tanta preparação e monólogos para morrer tão rápido. Não me permitiram sentir dor, muito menos sentir o sangue colar a camisa ao corpo.

Não vale nem um nome de rua, no máximo fica uma medalha para os parentes.

Você perdeu Camilo.

E a culpa é toda sua, pode colocá-la em quem quiser.

https://deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2015/09/farto-de-tolice-coluna2.jpghttps://deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2015/09/farto-de-tolice-coluna2-150x150.jpgIkie ArjonaCrônicas
Pois bem, outra semana em que deixei de publicar a coluna. E desta vez não foi por um motivo ruim como ocorreu anteriormente, apenas um feriado e uma viagem pra longe da chuvosa Porto Alegre destes últimos tempos. O texto de hoje não é inédito, pois faz parte da coletânea As...