Morre meu medo e isto não é segredo

Belchior Fotografia

Setenta anos de medo puro, daqueles que a gente sente de longe exalando na pele e fugindo pelos poros, tão forte que magicamente transmuta em coragem. Pelos olhos brilhantes e pelo suor não é possível enxergar diferente de coragem, somente e apenas a vontade de gritar, cantar ou escrever que não existe regra nenhuma. E nunca foi medo, sempre foi coragem.

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Qualquer palavra escrita sobre Belchior e sua obra é uma tarefa difícil de resiliência para fugir de clichês que logo se torna um contrassenso tão grande quanto uma cartilha de regulamento anárquico. Como desobedecer aquilo ou quem desobedece ao próprio não-mestre? Tão lisérgico quanto aquela velha roupa colorida.

E pronto, acabaram as referências forçadas. Pelo menos as referências voluntárias, pois cada passo em falso do sobralino são tão cheias de significados que até mesmo o próprio não deve ter consciência de onde chegou.

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Recebeu desde cedo influências do cancioneiro e prosa popular por meio de sua família e por exercer a função de programador de rádio, numa época onde este era o meio de comunicação genuíno de acesso massivo da população brasileira, cresceu com a música e poesia sendo intrinsecamente ligadas ao seu desenvolvimento físico e cultural.

Após abandonar os estudos de medicina na capital cearense para dedicar-se integramente à carreira musical, rodou o nordeste em festivais e chegou a vencer o festival universitário em 1971 já no Rio de Janeiro.

A riqueza de sua prosa recheada de contestação e acidez nas críticas contrastavam com a profunda capacidade de traduzir anseios e angústias cotidianos de maneira simples e natural. Fosse à rememoração da terra natal ou na expiação comum àqueles que sofriam pelas capitais no êxodo rural dos anos 60 e 70.

Maria Bethânia, Jair Rodrigues, Elis Regina e Gal Costa foram alguns dos nomes que interpretaram canções que elevaram Belchior ao posto de um dos maiores e bem sucedidos artistas e ainda assim seguiu sendo retratado pela grande mídia de forma caricata e reduzido a mero cantor romântico.

E posteriormente como aquele cantor antigo que dava calotes em hotéis e fugia cinematograficamente, exilado em pequenas cidades e desconecto da realidade.

Talvez nunca tenham notado que esse sumiço era o único caminho possível para um artista tão lúcido e consciente de como funciona o empobrecido mercado fonográfico nacional. A essência antimaterialista que imprimiu em sua obra já continha todas as pistas e o tempo só fez o trabalho de colocar tudo em seu devido lugar.

Pessoalmente não sinto falta da presença física de Belchior nos palcos, tampouco na produção de novas composições. Ainda sinto o frescor de suas impressões e críticas na sociedade que carrega os mesmos vícios de 40 anos.

Como em Macondo, o tempo parece andar em círculos e o futuro repetir prodigiosamente o passado. Insistindo em dar voz aos viciados em dinheiro e adeptos da ordem social emoldurada à base de socos e aos preguiçosos progressistas que não cansam de buscar respostas em astrologia e recursos teóricos sem notar que cada vez mais se distanciam das massas por quem dizem lutar.


Siga em paz e siga enganando teus credores Belchior, pois ao mundo não deves nada!

2 comentários sobre “Morre meu medo e isto não é segredo

  1. Sou uma jovem apaixonadíssima pelo trabalho desse inconfundível artista. Sinto muito não ter tido a chance de contemplar seus shows.Qndo atingir a maior idade, ele já não mais fazia suas apresentações. Pena!

  2. Sou uma jovem apaixonadíssima pelo trabalho desse inconfundível artista. Sinto muito não ter tido a chance de contemplar seus shows, pois,qndo atingir a maior idade, ele já não mais fazia suas apresentações,porém curto bastante suas canções.

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