“Não é o Cunha que é o chefe, vamos entender isso. Cunha é café pequeno perto dos trilhões roubados da Petrobras. Chega de ficar colocando boi de piranha, vocês jogam e todo vai em cima e esquece do Lula.”.

Assim começou uma das maiores loucuras que vi nos últimos tempos. Sinto uma mistura de enjoo e vergonha alheia. Odeio essa sensação, mas assisti a todos os 3 minutos e 24 segundos dessa tortura mental. E sabe porquê? Porque isso é minha culpa.

Os protestos pelo impeachment de Dilma, chegaram a levar 100 mil pessoas para rua, hoje, como era de se esperar, mal conseguem juntar 500. Uma coisa incomoda é que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi poupado. O peemedebista, teve contas milionárias na Suíça reveladas pelo Ministério Público do país europeu e é acusado de se beneficiar da corrupção na Petrobras, mas não foi citado em nenhum cartaz, placa, faixa ou discurso. A tão famosa indignação seletiva do brasileiro, em especial do paulistano, ataca novamente.

Bom em nenhum momento questiona-se o direito dessas pessoas protestarem, pelo contrário, finalmente decidiram ir à rua por seus direitos. Mas precisavam usar argumentos rasos e preconceituosos? Aí reclamam que chama essas de manifestações de elite.  Manifestações de Elite? Hahaha Pensei numa versão do Tropa de Elite onde o Capitão Nascimento seria o Juiz Sergio Moro e ao invés de despachos ele faria justiça com um saco plástico e um cabo de vassoura em uma favela qualquer. Talvez isso acalmasse as pessoas. Acho que nem esse filme poderia ser tão nonsense quanto escutar coisas como:

  • “Estamos nos manifestando com um único foco: o impeachment de Dilma Rousseff. Eduardo Cunha, é o presidente da câmara dos deputados que tem a oportunidade de colocar o que a rua está pedindo. ”.
  • “A gente só quer o país de volta e não foi o Eduardo Cunha que tomou o país da gente. O país é nosso é uma cultura de privilégios que o PT quer implantar e quer que o Brasil vire uma Venezuela”.
  • “As pessoas não entendem o que é ser o comunismo e o que é ser o socialismo. Com certeza o Brasil já está em uma ditadura comunista. ”.
  • “O comunismo é tudo que aconteceu onde ele já passou. É miséria, abandono, tudo que o diabo já esqueceu é o comunismo”.

Agora vamos ao ponto: o que me deixa pior em toda essa situação é saber que a culpa disso tudo é exclusivamente minha. Calma, já vou explicar. Há alguns anos, decidi criar um ambiente confortável, a famosa bolha, onde só escutaria a opinião de pessoas que possuíam argumentos validos e embasados. Um ambiente controlado, onde mesmo as pessoas defendendo opiniões totalmente contrarias sempre haveria uma troca.

Tenho de admitir, isso me fez feliz. Nunca mais tive de lidar com pessoas gritando a plenos pulmões “Fora Dilma sua vadia!” ou “Haddad ladrão comunista destruidor de São Paulo”. Me fechei nessa bolha de boa vontade e não percebi que tudo era efêmero. Até que, finalmente, chegou o fatídico dia em que o vídeo acima chegou até mim e meu mundo ruim. Era tudo minha culpa.

Errei todas as vezes que fingi não ver uma corrente no Whatsapp, que evitei uma discussão no trabalho indo fumar um cigarro, que deixei de assinar o feed de alguém que compartilhava algo do Revoltados Online, que entrei na página da Rachel Sheherazade e encerrei a amizade com que a havia curtido. Tudo um grande erro. Essas eram as pessoas com quem precisava dialogar, não as da bolha das ONGs, movimentos sociais, defensores do Haddad etc.

As pessoas com quem precisava dialogar eram os assinantes da Veja, as que acham graça das piadas preconceituosas do Danilo Gentili, os ouvintes dos impropérios da Rachel Sheherazade, os leitores do Olavo de Carvalho. Por mais que isso seja assustador, a mudança real está aí e não em se fechar em uma bolha de amigos que também se fecham em suas próprias bolhas. Cada vez existem mais deles e menos de nós. “Nós x Eles”, engraçado como sempre termina nisso.

Como é difícil conversar com o “outro lado”, tentei tantas vezes e tudo que escutei é que sou playboy de esquerda que trabalha em ONG. Poxa, sou de um do bairro que dizem ser o pior da cidade e minha mãe teve que trabalhar tanto para que eu tivesse oportunidade de sair de lá. Está aí duas coisas que nunca entendi:  porque tinha de sair de lá e de onde eles tiram essas coisas que meu bairro era um lugar ruim. Se não fosse a violência do Estado e do poder paralelo acho que nunca sairia de lá… Droga! Preciso focar no problema.

Como estabelecer diálogo com quem mal consegue separar o joio do joio? Não sei, que difícil. Será que a culpa é realmente minha ou novamente estou querendo carregar o mundo nas costas? Talvez se conversasse com um amigo ele pudesse me ajudar a entender tudo que está acontecendo. Não, eles tentariam aliviar minha barra. A culpa é minha, então resolver isso é minha responsabilidade.

15mar2015---manifestante-antigoverno-grita-com-um-defensor-do-pt-partido-dos-trabalhadores-durante-o-protesto-de-15-de-marco-na-praia-de-copacabana-rio-de-janeiro-diversas-cidad (1)
Isso fica ecoando na minha cabeça: a culpa é minha. O país está em queimando e a culpa é minha. Estamos à beira do abismo fascista e a culpa é minha. Perdemos a capacidade de dialogar e a culpa é minha. Sempre achei que pudesse ser alguém importante, mas tinha que ser por algo tão ruim? Estou tão confuso, acho que não quero mais falar sobre isso agora, minha cabeça está girando e meu estomago está embrulhado. É difícil digerir tanta coisa. Até ontem me achava uma boa pessoa, mas acabo de descobrir que sou um egoísta tão vil quanto quem chama o bolsa família de privilégios do PT. Apenas duas faces da mesma moeda.

Bom, talvez alguém possa ter raiva de mim por tudo que causei, então acho que deveria colocar em prática a tal história do diálogo com o “outro lado” e deixar que sejam tiradas as devidas satisfações. Prazer, eu sou você.

 

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'Não é o Cunha que é o chefe, vamos entender isso. Cunha é café pequeno perto dos trilhões roubados da Petrobras. Chega de ficar colocando boi de piranha, vocês jogam e todo vai em cima e esquece do Lula.'. Assim começou uma das maiores loucuras que vi nos últimos...