Oxigênio Hardcore Fest – Evento sutentável, cenário devastado?

Oxigênio Hardcore Fest

Palco gigantesco e muito bem equipado, lineup com bandas renomadas, espaço para para descanso, andar de skate, diversas opções de alimentação e uma multidão reunida em torno de um evento musical.

Lollapalooza? SWU? Rock in Rio? Não, estamos falando de um gênero específico. Imagina um festival nesses moldes voltado ao hardcore.

Ah, então estamos falando da Warped Tour? Quase, com nome diferente, mas o mesmo patrocinador e voltado às bandas nacionais. Esse é o modelo apresentado pelo Oxigênio Hardcore Fest.

Dividido em dois dias, num espaço quase central e com diversas atrações pensadas para além da música. Era um sonho antigo e que hoje é revisitado após passado o trauma de grandes festivais que quase enterraram a credibilidade de bandas e produtores há uma década.

[wbcr_php_snippet id=’53103′]

Desta vez mais estruturado e com uma quantidade coerente de bandas, sem grande alarde ou pretensões megalomaníacas que poderiam inviabilizar o evento. É louvável a disposição, mas vamos levantar alguns pontos para trazer uma perspectiva diferente sobre o molde do evento.

Somos reféns de grandes festivais?

Há um consenso entre bandas e produtores que não há escassez de eventos, mas de público em pequenos e médios shows. Inclusive o Hangar 110 está fechando as portas, entre outros fatores, por entender que as pessoas não se interessam mais em frequentar esse tipo de ambiente com o mesmo entusiasmo de outrora.

Manter esse tipo de estrutura fixa é custoso e gera uma quantidade inimaginável de dores de cabeça. Mas se é complicado manter esse circuito sustentável em estruturas médias, qual a motivação em realizar eventos de maior porte?

Obviamente a novidade e o espaçamento entre a realização das edições deve gerar um resultado satisfatório para os produtores. Mas o importante não é manter a cena ativa?
Onde estarão essas pessoas no intervalo entre as edições? Aparentemente nos shows dessas mesmas bandas em eventos individuais que não é, como temos experimentado ultimamente.

O evento é sustentável, mas o ambiente não. A pergunta aqui não será retórica. Como alimentar um calendário de shows prolífico com um público tão aleatório?

Outro ponto na questão estrutural é sobre valores envolvidos em cada atividade. Após a propagação da ideia de que o importante é a experiência, é normal as pessoas aceitarem pagar valores absurdos em alimentação e bebidas superfaturadas em festivais.

Em um espaço menor, não seria igualmente viável a realização do evento sem grandes penduricalhos e voltado exclusivamente à música? O resultado não seria atingido por um custo mais baixo?

Ainda não consigo digerir a necessidade em estar presente em eventos por ser uma tendência e não por vontade de ver os amigos, ouvir as bandas e pagar um valor acessível.

Sempre os mesmos 10 ou 12

Às vezes existe a impressão de que o cenário de bandas se resume à 10 ou 12 artistas. E a cada ano essa sensação se reforça. Algumas bandas que já haviam encerrado as atividades retornaram e ao invés de trazer um frescor ao gênero, intensificou a impressão que estamos parados no tempo em diversos quesitos.

Todo o respeito e reverência ao trabalho de quem à duras penas abriu e moldou um cenário. Durante anos foram responsáveis que gerações se inspirassem e seguissem estes passos pra consolidar o gênero através do país.

Infelizmente, determinadas bandas vivem de fazer tributos ao trabalho pregresso, sem oferecer nada novo. Ainda que a base de fãs seja presente e compareça à todos os shows de encerramento e retorno, as apresentações parecem caricaturas do que um dia impactou e inspirou.

Outras seguem gravando, produzindo e são necessárias para dar determinado ar de legitimidade ou credibilidade aos eventos. E essas bandas/bandeiras não fazem questão de cumprir esse papel, elas simplesmente o são. Ao encabeçar esse tipo de evento, abrem oportunidades para que outros mais desconhecidos, apesar de ser inacreditável que num cenário tão restrito haja tão desconhecimento do que acontece em outros cantos do país.

Por que não trazer mais novidades de localidades diferentes? Reiterando o respeito pelo trabalho realizado, o que algumas bandas agregam ao festival? Oxigênio traz a referência de respiração, renovação,  a um elemento necessário à vida.

Entendo a dificuldade e custos envolvidos ao apostar em artistas menos conhecidos, mas não havia espaço para uma maior variedade? Talvez opções mais heterogêneas sejam mais interessantes ao pensar na sustentabilidade da cena a longo prazo.

E se…

Muito desse questionamento vem de gosto e afinidades, mas ainda assim, acredito que podemos pensar em novos vetores e em criar redes que permitam o trânsito entre artistas de maneira mais fluida.

Apenas uma provocação. Ao invés de algumas bandas que sempre fazem shows em São Paulo, não seria interessante ter bandas como Better Leave Town, Renegades of Punk, Parte Cinza, Ornitorrincos, Kill Moves no lineup? E até bandas da cidade como Futuro e O Inimigo entram nessa lista.

Sigo acreditando que é preciso muita coragem para meter a cara e organizar um evento desse porte. Queria estar na cidade para acompanhar e prestigiar, pois o trabalho merece reconhecimento. Que eventos assim se amplifiquem, mas que pequenos e médios shows também tenham esse apelo do público e principalmente dos veículos de mídia independente.

Quer saber mais sobre o que acontece no universo da música independente? Curta a página do Frequência no Facebook e acompanhe nosso podcast no Soundcloud!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *