Single, EP ou álbum?

Há alguns dias acompanhando os posts do grupo RAP CRU, reparei que o público tem comparado e equiparado trabalhos de diferentes formatos da mesma maneira. Nessa época de polarizações existe uma necessidade extrema em rotular e definir quem é melhor ou quem apresentou o novo disco clássico da semana.

No meio desse tiroteio que envolve o gosto e o desejo em comentar tudo que aparece, a organização das prateleiras é perdida e produtos distintos são tratados como iguais.

Esse consumo confuso interfere no modo que os artistas disponibilizam sua música. Os custos e a absorção do público influenciam nos caminhos escolhidos por cada produtor. Nas próximas linhas vamos exemplificar e opinar sobre formatos e tendências de lançamento musical.

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Single, EP ou álbum?

Em 2017 houve uma explosão de cyphers, tanto que o modelo chegou a saturar e poucas foram marcantes a ponto de serem lembradas ou resultarem em algo mais concreto após as reuniões. Com a popularização massiva do YouTube, marcas e produtoras empenharam muito trabalho para utilizar o formato e geraram algumas tretas com os artistas. Inclusive, alguém sabe se a Pineapple já pagou o Raffa Moreira?

Nesse post de julho, listamos todos os lançamentos do mês e a quantidade de cyphers é gigantesca. É difícil acreditar que todo esse conteúdo foi absorvido, e tem um agravante, a qualidade em muitas das faixas é bem duvidosa para um ano que ficou conhecido como lírico.

É a maneira mais eficiente de apresentar novos MC’s ou pelo menos instigar o ouvinte a buscar mais referências dos participantes? Isso dificilmente ocorre, assim como nos lançamentos de singles com vídeos. É um formato oneroso que às vezes não se paga, além de criar lacunas na percepção do contexto de cada trabalho.

Talvez a velocidade de consumo do público atualmente seja tão alta que apenas essas pílulas satisfaçam, independente de uma conexão com um trampo mais complexo posteriormente.

Essa falta de entendimento sobre o que é o que, gera comentários por vezes constrangedores. O excelente EP ‘Antes dos Gigantes Chegarem Vol. 2’ é a sequência do registro lançado em outubro, e apesar de apresentar referências de outro salto de qualidade nas produções de Bk’, é inconcebível alguém comparar estes com ‘Castelos & Ruínas’.

‘Castelos & Ruínas’ é uma obra consistente, elaborada e contextualizada de maneira diferente de um EP. É completa e carrega essa característica de completude até o encerramento. O entendimento das ideias e percepção de como tudo foi executado ali é mais denso e necessita de mais tempo pra maturação, pois apresenta início, meio e fim. Está completo, é um ciclo fechado.

Comparado com os EP’s sempre será maior, pois os registros mais recentes – apesar de ótimos – estão abertos e tem outra finalidade. Ao encerrar o ciclo/projeto, talvez possamos equipará-los, mas hoje é impossível colocar os três na mesma prateleira.

Peças distintas de uma só engrenagem

O impacto desses registros fragmentados quando reunidos em um álbum cheio tende a ser menor do que um disco que já é pensado como projeto fechado. Por vezes, o excesso de informações e contatos que temos durante o período de espera tira a força de alguns trampos.

‘O Pior Disco do Ano’ sofreu com isso. Grande parte dos sons já eram conhecidos quando o Froid liberou o álbum completo e em alguns momentos batia a sensação de brisa roubada por ouvir faixas bastante conhecidas em meio aos sons novos. E claro, depende muito do tempo e espaço que o ouvinte encara isso tudo.

Uns podem encarar como uma coletânea sem importar com o pacote completo, quem não teve contato com as prévias e ouve de ponta a ponta vai se impactar com o material, mas outros – e me incluo nesse grupo – não sentem bater tanto um álbum que foi bastante aguardado.

Em contrapartida, bons trabalhos que aparecem sem muito alarde tendem a ter seu impacto majorado. O EP ‘Pé no Chão’ saiu no finalzinho do ano, mas ainda assim foi um dos que mais ouvi. Não entrou na minha lista e em várias outras de melhores discos do ano justamente pelo formato.

É mais curto e um registro despretensioso e pontual de uma mudança de fase de Rodrigo Ogi. O tamanho do trampo não traduz a qualidade, em alguns casos amplifica o melhor do conteúdo ao concentrar apenas as melhores porções em um pote menor.

E na busca por rentabilidade e conhecendo os custos para entregar um álbum cheio, essa foi a solução encontrada pelo vovô pra não ficar parado em 2018:

Pode ser uma alternativa trabalhar em duas frentes para conseguir materializar projetos distintos. É necessário que haja entendimento do público acerca das propostas do artista. E que esses não fiquem reféns de formatos ou pode faltar conteúdo e contexto.

Pessoalmente não tenho nada contra nenhuma forma de distribuição, todas são válidas e algo que mantém o sangue quente é a música. Portanto artistas produzam, público consuma e que 2018 seja tão próspero quanto ano passado para a música clandestina!

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