Teu Pai Já Sabe? – A blasfêmia necessária

Teu Pai Já Sabe

A primeira vez que ouvi falar do termo queer punk foi há muitos anos durante uma entrevista com o Rodrigo Lima. Este recomendou fortemente uma banda paranaense chamada Teu Pai Já Sabe?, assim mesmo com a interrogação. Demorei algum tempo para encontrar algum material, pois eles haviam recém lançado o primeiro trampo.

Consegui ouvir a primeira vez durante uma Verdurada em Curitiba/PR e de quebra ainda tive a oportunidade de ver Limp Wrist no mesmo festival. Confesso que além da estética e qualidade do som, percebi o quanto minha visão era limitada sobre o que acontecia dentro da cena que estava inserido há anos.

Dentro de um espaço libertário e repleto de discursos de inclusão, era a primeira vez que ouvia vozes falando abertamente sobre homossexualidade.

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Teu Pai Já Sabe? – Blasfêmia pouca é bobagem

Desde sua formação a banda transita entre Curitiba e Maringá, onde o vocalista Carlos “Mamá” Tostes, mantém o Vaca Louca Café Vegetariano. O próprio Mamá disse que um dos fatores da banda seguir em frente, apesar de todo o desgaste nas relações desse tipo é a forte ligação entre os integrantes.

Por encararem a banda como um organismo independente, as cobranças e ruídos são mais facilmente controlados. Inclusive para realização de ensaios que são constantes apesar da distância ser um entrave. 

Os dois trampos lançados ‘Blasfêmia Pouca É Bobagem‘ (2009) e ‘Agora Sabe‘ (2013) são um compilado de experiências e pontos de vista construídos dentro de um ambiente transgressor, apesar do contexto social conservador.

“Queer é uma identidade definida contra a dominação hetero-monogâmica-patriarcal-branca. Queer representa nossas sexualidades, nossa resistência ao regime do normal, e a normalidade é vista para nós como uma tirania. E nos é imposta violentamente a cada dia. A normalidade é a miséria e a opressão… A normalidade é a miséria e a opressão.” – Queer, Agora Sabe

Sem nenhuma intenção de ser chapa branca, todo o conteúdo é panfletário na melhor acepção da palavra. Os conceitos de liberdade e luta por igualdade está presente em cada letra, cada riff. É um manifesto contra todo tipo de intolerância que inspira por sua linguagem direta.

O intervalo entre os lançamentos alimenta a necessidade de material novo, tendo em vista que a banda assumiu o papel de porta voz de um grupo cada vez mais numeroso em nossa sociedade. Segundo o vocalista, em breve teremos novidades em relação à shows e gravações. 

Interseccionalidade e espaço na cena

Teu Pai Já Sabe - AS
Foto por Alávaro Sasaki

A interseccionalidade dentro do movimento punk é mais clara hoje, as pautas parecem mais comuns do que nunca. Sejam elas questão de gênero, mobilidade urbana ou libertação animal. E a Teu Pai Já Sabe? se insere como um todo nesse movimento. Não é uma banda de nicho, conversa com diversas vertentes e mantém sua postura e coerência.

A longevidade da atuação de seus integrantes em variados círculos reitera a relevância da banda. 

“Para nós, parece que se fechar demais traz o risco de não poder trocar com as pessoas e de conhecer outras realidades.” – Felipe Linux

Alguns grupos se fecham até por questão de proteção ou sobrevivência. É legítimo também. Mas nossa banda sempre pensou em unir todo mundo e, de alguma forma, promover um diálogo. Então, no geral, a gente prefere a mistura e a convivência. Para nós, parece que se fechar demais traz o risco de não poder trocar com as pessoas e de conhecer outras realidades.

Infelizmente alguns eventos importantes para essa integração comentada por Felipe perderam força. Um exemplo triste é o encerramento do projeto Queers & Queens Festival que fomentava a cena independente através de música e arte. Esses espaços de visibilidade e defesa dos direitos conquistados parecem ser cada vez mais perseguidos. Seja pela falta de apoio financeiro para bancar iniciativas culturais ou pela crescente onda conservadora em nossa sociedade.

Em tempos que leigos definem que é arte…

A notícia da exposição cancelada no Santander Cultural trouxe mais uma vez à tona a fragilidade no debate institucional sobre gêneros. Parece que estamos voltando no tempo e da pior maneira possível, esses grupos são facilmente chocáveis e utilizam da desonestidade intelectual e se apoiam em mentiras para gerar barulho em torno de suas bandeiras.

O baixista da banda, Felipe Linux, nos passou sua visão sobre o caso:

Esse caso do Santander nos faz pensar em muita coisa. A exposição era até bem comportada: tinha Portinari, Volpi, Lygia Clark, nomes que a gente não atribui de cara ao queer, mas que faz sentido dentro da proposta da curadoria. Além disso, tinha o aval de um banco. Mas parece que passamos por um momento de pouca elaboração. As pessoas que reclamaram da mostra parecem incapazes de dois ou três minutos de reflexão. Eu ainda não entendo como alguém olha uma tela como “Cena de Interior II”, da Adriana Varejão, e resume tudo aquilo a “Zoofilia não é arte! Vou cancelar minha conta corrente!”. É muita falta de leitura e de abstração.

O que preocupa também é o fato de o banco ter cedido a pressão desse pessoal. Ou seja, de alguma forma, essas pessoas que não conseguem pensar por três minutos sobre um quadro conseguiram cancelar uma mostra de arte. É bem preocupante.

Apesar dessa crescente e absurda onda de patrulhamento no país, vozes como a do Teu Pai Já Sabe? seguem fortes na luta por uma sociedade igualitária. Fazendo cair por terra traços e esteriótipos ao falar abertamente sobre vontades e anseios dentro ou fora da cena punk. 

 

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