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Conhecido como “velho safado”, Charles Bukowski não deve ser tratado como um simples estereótipo. Ele certamente é muito mais do que isso, muito mais do que um mero poeta que retrata o sexo em sua forma mais suja, mais do que um cara que se excitava com os vestidos esvoaçantes das moças. O alemão foi um dos grandes nomes da poesia do anos 60, 70 e 80 e, até hoje, é descoberto por milhares de novos leitores.

Com uma cara assustadora, cheia de traumas deixados pelas espinhas na adolescência, a risada escancarada, Buk guardava secretamente uma voz suave. Ele já sabia que era uma figura muito marcante em frente às câmeras. Durante uma entrevista, para acalmar o repórter, ele soltou: “Esqueça a minha imagem, eu tenho coração”.

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Muitos leitores deixam Bukowski de lado – por o considerarem um escritor de linguagem chula – pelo simples fato de não dar a mínima e relatar o que acontece entre quatro paredes, detalhar as relações íntimas, descrever o corpo de cada mulher que esteve com ele, suas fantasias sexuais e tudo que vem depois disso, as brigas, as discordâncias, a distância e a solidão. Tudo sem enrolação.

Ler um livro de Bukowski é como assistir a um filme barulhento e rápido, onde se imagina os personagens tagarelando, brigando, bebendo, fazendo apostas, tendo ressacas monstruosas e dormindo sem tirar as calças e sapatos. No meio das cenas, alguém pode surgir do nada com conversas sobre o caos urbano, a vida adulta, o amor e a filosofia.

As páginas de Buk são feitas de carne e osso, são intensas e viscerais, como se cada um de nós tivesse sentido tudo aquilo, mas somos incapazes de traduzir com tanta verdade. Fica difícil de imaginar que cada conto é parte de algo que aconteceu de verdade.

Com uma de suas mulheres, Linda King.

Com uma de suas mulheres, Linda Lee

“Henry”, como era chamado por seu pai – a figura que mais odiava no mundo – era extremamente amoroso com suas companheiras quando estava apaixonado. O problema é que ele sempre se envolvia com mulheres problemáticas, prostitutas, trapaceiras e golpistas. Somando isso a bebedeira (montanhas de cervejas) era uma explosão de xingamentos, tapas, socos, chutes e muitos insultos.

No final de tudo, Hank conseguiu conquistar o que qualquer pessoa deseja: textos publicados em grandes veículos, dinheiro para comer e beber com decência, belas mulheres e leitores fieis. Mas quem disse que isso lhe fazia feliz? Ele só queria sentar em frente à sua máquina de escrever e esquecer o mundo lá fora, sem contato com pessoas. Sua própria companhia sempre foi o suficiente.

Todo mundo quer ter sua história contada em livros, por isso Buk vendia muitos exemplares. Todo mundo quer saber como é a vida do outro lado. Todo mundo quer saber como é viver na sarjeta, sem ter o que comer ou onde morar. Se você prefere acreditar em contos de Jane Austen, definitivamente seu lugar não é aqui.

John Martin, um admirador de Bukowski que criou a editora Black Sparrow Press só para publicar seus livros, perguntou por que ele não deixava o emprego para apenas escrever. Ele respondeu: “Porque eu preciso sobreviver”.

Bukowski morreu de leucemia aos 73 anos, em 9 de março de 1994. Seu túmulo, que fica no Cemitério Green Hills Memorial Park, na Califórnia (EUA), é visitado por admiradores todos os dias. Na lápide está escrito “Don’t Try” (nem tente), que vem da frase “Se você for tentar, vá até o fim. Caso contrário, nem tente”.

“Um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar”, dizia ele.

 

Francine CostantiCrônicas
Conhecido como 'velho safado', Charles Bukowski não deve ser tratado como um simples estereótipo. Ele certamente é muito mais do que isso, muito mais do que um mero poeta que retrata o sexo em sua forma mais suja, mais do que um cara que se excitava com os vestidos...