Tradutor do amor sem censura, Bukowski nos deixava há 22 anos

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Conhecido como “velho safado”, Charles Bukowski não deve ser tratado como um simples estereótipo. Ele certamente é muito mais do que isso, muito mais do que um mero poeta que retrata o sexo em sua forma mais suja, mais do que um cara que se excitava com os vestidos esvoaçantes das moças. O alemão foi um dos grandes nomes da poesia do anos 60, 70 e 80 e, até hoje, é descoberto por milhares de novos leitores.

Com uma cara assustadora, cheia de traumas deixados pelas espinhas na adolescência, a risada escancarada, Buk guardava secretamente uma voz suave. Ele já sabia que era uma figura muito marcante em frente às câmeras. Durante uma entrevista, para acalmar o repórter, ele soltou: “Esqueça a minha imagem, eu tenho coração”.

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Muitos leitores deixam Bukowski de lado – por o considerarem um escritor de linguagem chula – pelo simples fato de não dar a mínima e relatar o que acontece entre quatro paredes, detalhar as relações íntimas, descrever o corpo de cada mulher que esteve com ele, suas fantasias sexuais e tudo que vem depois disso, as brigas, as discordâncias, a distância e a solidão. Tudo sem enrolação.

Ler um livro de Bukowski é como assistir a um filme barulhento e rápido, onde se imagina os personagens tagarelando, brigando, bebendo, fazendo apostas, tendo ressacas monstruosas e dormindo sem tirar as calças e sapatos. No meio das cenas, alguém pode surgir do nada com conversas sobre o caos urbano, a vida adulta, o amor e a filosofia.

As páginas de Buk são feitas de carne e osso, são intensas e viscerais, como se cada um de nós tivesse sentido tudo aquilo, mas somos incapazes de traduzir com tanta verdade. Fica difícil de imaginar que cada conto é parte de algo que aconteceu de verdade.

Com uma de suas mulheres, Linda King.
Com uma de suas mulheres, Linda Lee

“Henry”, como era chamado por seu pai – a figura que mais odiava no mundo – era extremamente amoroso com suas companheiras quando estava apaixonado. O problema é que ele sempre se envolvia com mulheres problemáticas, prostitutas, trapaceiras e golpistas. Somando isso a bebedeira (montanhas de cervejas) era uma explosão de xingamentos, tapas, socos, chutes e muitos insultos.

No final de tudo, Hank conseguiu conquistar o que qualquer pessoa deseja: textos publicados em grandes veículos, dinheiro para comer e beber com decência, belas mulheres e leitores fieis. Mas quem disse que isso lhe fazia feliz? Ele só queria sentar em frente à sua máquina de escrever e esquecer o mundo lá fora, sem contato com pessoas. Sua própria companhia sempre foi o suficiente.

Todo mundo quer ter sua história contada em livros, por isso Buk vendia muitos exemplares. Todo mundo quer saber como é a vida do outro lado. Todo mundo quer saber como é viver na sarjeta, sem ter o que comer ou onde morar. Se você prefere acreditar em contos de Jane Austen, definitivamente seu lugar não é aqui.

John Martin, um admirador de Bukowski que criou a editora Black Sparrow Press só para publicar seus livros, perguntou por que ele não deixava o emprego para apenas escrever. Ele respondeu: “Porque eu preciso sobreviver”.

Bukowski morreu de leucemia aos 73 anos, em 9 de março de 1994. Seu túmulo, que fica no Cemitério Green Hills Memorial Park, na Califórnia (EUA), é visitado por admiradores todos os dias. Na lápide está escrito “Don’t Try” (nem tente), que vem da frase “Se você for tentar, vá até o fim. Caso contrário, nem tente”.

“Um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar”, dizia ele.

 

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