Quando Corra! venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2018, Jordan Peele entrou para um grupo pequeno, o de diretores de terror levados a sério pela Academia antes de completar dois longas. Nós chegou um ano depois carregando esse peso, e a pergunta justa era se Peele conseguiria repetir a precisão de um roteiro que funcionava em três camadas simultâneas ou se o segundo filme seria a confirmação de um talento ainda em formação. O SXSW respondeu em março de 2019 com ovação, comparações a Hitchcock e a classificação informal de obra-prima do gênero circulando em tweets de críticos especializados antes mesmo do lançamento comercial.
Nós (Us) não é fácil de resumir sem estragar, e isso é parte do argumento a favor dele. Uma família afro-americana em férias na praia da Califórnia se depara com versões de si mesma, sósias silenciosos que chegam de madrugada e não vão embora. Peele afirmou publicamente que Nós é terror, não suspense psicológico, e a distinção importa porque o filme usa o horror como linguagem, não como atmosfera de fundo para um thriller de reviravoltas. O que está em jogo é mais fundo do que a sobrevivência da família Wilson.
Vale a pena assistir?
Nós pertence a uma tradição de terror americano que usa o gênero para dizer algo que o drama realista não consegue dizer com a mesma força, e Peele a executa com uma ambição política que poucos diretores do gênero alcançaram desde George Romero. A premissa dos sósias funciona como metáfora do que os Estados Unidos escolhem não ver, as populações que sustentam a estrutura do país e vivem literalmente abaixo dela, invisíveis até o momento em que não podem mais ser ignoradas.
O roteiro constrói essa leitura com paciência, e a família Wilson não é genérica. Adelaide carrega um trauma de infância ligado àquela praia, e o filme usa esse passado para transformar o que parecia história de fundo em mecanismo central da trama. Cada detalhe plantado nos primeiros quarenta minutos, a luva, o comercial do Hands Across America, o coelho, volta com função precisa, e o comercial reaparece no final, quando os sósias formam a corrente humana. Isso faz o roteiro render ainda mais numa segunda sessão, quando a estrutura fica mais visível.
Lupita Nyong’o é o argumento mais forte do filme, porque interpretar Adelaide e Red exigiu registros emocionais opostos e fisicalidades completamente distintas. Red se move com uma rigidez mecânica, fala com uma voz gutural que Nyong’o desenvolveu para o papel e deixa cada cena desconfortável de um jeito que não se resolve quando ela sai do quadro, enquanto Adelaide opera no registro do medo real e da proteção materna. Essa diferença sustenta a virada final e faz dela algo que pede para ser revisitado, não apenas processado.
Winston Duke acerta ao fazer de Gabe Wilson o alívio cômico nos momentos certos, e essa leveza deixa as sequências de horror mais eficazes por contraste. Peele já havia testado a mesma decisão em Corra!, com o amigo interpretado por Lil Rel Howery, mas aqui ela ganha uma camada extra, porque Gabe e seu sósia, Abraão, têm o mesmo corpo e comportamentos opostos.
A trilha de Michael Abels acerta ao fazer de I Got 5 on It, canção de hip-hop dos anos 90, o tema central do filme. A versão orquestrada que acompanha as cenas de horror transforma algo familiar em algo perturbador sem mudar as notas, só o contexto, e é o mesmo mecanismo que o roteiro aplica à família Wilson, em que o familiar vai se tornando irreconhecível.
Onde Nós perde terreno em relação a Corra! é na clareza da metáfora. O primeiro filme de Peele tinha uma leitura política que qualquer espectador conseguia acessar sem chave de interpretação, enquanto Nós é mais ambíguo, e essa ambiguidade divide o público de um jeito que o diretor provavelmente pretendia, mas que também gera frustração legítima em quem sai do cinema sem saber o que acabou de ver. É uma escolha de roteiro deliberada, e ela tem custo real.
Ainda assim, Nós vale a pena, porque funciona no nível do susto e no nível da análise, e poucos filmes de terror conseguem as duas coisas sem que uma prejudique a outra. Recomendo para quem gosta de terror psicológico e para quem acompanha o trabalho de Jordan Peele. Quem espera uma experiência tão redonda quanto Corra! pode se decepcionar com a ambiguidade, mas quem busca um terror com ambição política real e uma atuação central que justifica sozinha o ingresso vai encontrar isso aqui.
Trailer
Onde assistir online
No Brasil, Us (Nós) está incluído na assinatura ou disponível para locação ou compra nos seguintes streamings:
Catálogos e preços mudam com frequência, então vale conferir antes de assistir.
Festivais e prêmios
Nós estreou no South by Southwest (SXSW) em março de 2019, onde recebeu ovação do público e crítica. A sessão gerou comparações imediatas a Alfred Hitchcock e consolidou a reputação de Jordan Peele como um dos diretores de terror mais relevantes do cinema americano contemporâneo. Lupita Nyong’o foi amplamente apontada como candidata ao Oscar de Melhor Atriz pela performance dupla, embora a Academia não tenha concretizado a indicação.
Elenco
Elenco
Lupita Nyong'o
Adelaide Wilson / Red
Winston Duke
Gabe Wilson / Abraham
Elisabeth Moss
Kitty Tyler / Dahlia
Tim Heidecker
Josh Tyler / Tex
Shahadi Wright Joseph
Zora Wilson / Umbrae
Evan Alex
Jason Wilson / Pluto
Yahya Abdul-Mateen II
Russell Thomas / Weyland
Anna Diop
Rayne Thomas / Eartha
Direção e produção
Equipe
Jordan Peele
Diretor
Jordan Peele
Produtor
Jason Blum
Produtor
Sean McKittrick
Produtor
Jordan Peele
Roteirista
Ian Cooper
Produtor
Filmes parecidos
Gostou da produção e agora quer ver mais séries como ela? Aproveite nossa lista de indicações de filmes parecidos com Us.
- Corra! (Get Out, 2017), a estreia de Peele na direção, com uma metáfora sobre raça bem mais direta.
- Não! Não Olhe! (Nope, 2022), o terceiro filme dele, que fecha a trilogia.
- A Lenda de Candyman (Candyman, 2021), coescrito e produzido por Peele e dirigido por Nia DaCosta.
- O Homem Duplicado (Enemy, 2013), de Denis Villeneuve, também sobre um homem que encontra o próprio duplo.
- Atlanta (2016 a 2022), incluída por causa da comparação que você fez.
Perguntas frequentes
Qual a explicação do filme Us (Nós)?
Nós revela, no terceiro ato, que Adelaide e Red trocaram de lugar na infância, e a "Adelaide" que acompanhamos o filme inteiro é, na verdade, a sósia que subiu à superfície e assumiu a identidade da menina original. Os sósias são experimentos governamentais abandonados que vivem em túneis subterrâneos e espelham os movimentos de seus pares acima. A revolta deles é uma metáfora de classes invisibilizadas que chegam ao limite.
Quais filmes Jordan Peele dirigiu?
Jordan Peele dirigiu três longas-metragens: Corra! (Get Out, 2017), que venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original; Nós (Us, 2019); e Nope (2022), com Daniel Kaluuya, Keke Palmer e Steven Yeun. Os três filmes formam uma trilogia temática sobre medo, raça e identidade nos Estados Unidos.
Us é terror ou suspense?
O próprio Jordan Peele afirmou publicamente que Us é um filme de terror, contrariando parte da crítica que o classificou como suspense psicológico. A distinção importa porque o filme usa convenções do horror de forma deliberada, não como embalagem para um thriller de reviravoltas.
Qual é o novo filme de Jordan Peele?
O quarto filme de Jordan Peele, sucessor de Nope (2022), chegou a ter estreia marcada pela Universal para outubro de 2026, mas o estúdio o tirou do calendário e ainda não há título nem data nova divulgados. Recomendamos acompanhar fontes especializadas para atualizações.
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