Crítica | Rambo: Até o Fim é prejudicado pelo seu próprio passado

Por Clids Ursulino


Sendo uma criança dos anos 90, minha “formação cultural” foi composta de seriados mexicanos, desenhos japoneses e filmes americanos protagonizados por brutamontes. Os heróis de ação da época eram Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris, Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e outros muitos que com uma arma que nunca ficava sem balas derrotavam exércitos inteiros.

Stallone, que será o nosso herói de ação hoje, fez diversos clássicos do gênero como Cobra, Falcão, Risco Total, Tango & Cash e Rambo, que recebe em 2019, seu quinto (e último?) capítulo.

Sendo uma sequência direta do brutal e divertido Rambo (2008), Rambo: Até o Fim tinha apenas uma missão: desenvolver um final convincente para um personagem que, apesar de seus muitos defeitos, é extremamente querido pelo público de diversas faixas etárias e, ao encarar essa responsabilidade, o filme falha. E falha feio.

John Rambo, agora um fazendeiro recluso com uma família mexicana (que, aparentemente, Stallone não achou necessário explicar de onde vó e filha saíram) vive dividido entre a pacata função de cuidar do seu rancho e resgatar pessoas dos perigos que a floresta oferece. Que é mais ou menos a grande habilidade do personagem: resgatar oprimidos e salvar o dia. Mas essa história já pode ser considerada batida, não só na saga Rambo mas em outras dezenas de filmes de ação dos últimos 40 anos.

Stallone recorreu aos clichês para encerrar o ciclo de Rambo


O filme bebe (um pouco demais) de sua própria fonte e de outras mais modernas como Busca Implacável, Rambo: Até o Fim é um festival de clichês que parece mais uma paródia de si mesmo do que um final digno para a história.

As partes técnicas do filme, apesar de não contribuírem para evitar o desastre que é o roteiro, são sólidas. As cenas de ação, como esperado, entregam o prometido, que basicamente são explosões bem construídas e cenas de luta bem coreografadas, você sabe, o filme do herói incansável 101. O maior problema do filme é mesmo sua história, que confunde com personagens que você não faz ideia de quem são, mas ao mesmo tempo, te deixa com a impressão de já ter visto essa odisseia em outros lugares.

Outro ponto que, em 2019, pode ser considerado negativo, é o esforço que Stallone continua fazendo de retratar os “adversários” políticos dos Estados Unidos como vilões.

Não sou especialista na política americana (até porque, cada dia que passa, entendo menos e menos a política do meu próprio país), tampouco conheço o México e seu clima social. Mas me parece tendencioso demais colocar os mexicanos como pessoas frias, violentas e inescrupulosas, visto como a relação entre os dois países parece estar no seu momento mais crítico.

Escolhas artísticas são escolhas artísticas no final do dia, mas acredito que poderia ter sido retratado de forma diferente. Sem ser tão ofensivo para o lado mais fraco do cabo de guerra.

Em essência, Rambo: Até o Fim é prejudicado pelo seu próprio passado. O que Sylvester Stallone conseguiu com Rocky, bateu de cara no muro com Rambo, dando um final pífio para um personagem que merecia muito mais.

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Por Clids Ursulino Sendo uma criança dos anos 90, minha “formação cultural” foi composta de seriados mexicanos, desenhos japoneses e filmes americanos protagonizados por brutamontes. Os heróis de ação da época eram Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris, Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e outros muitos que com uma arma que nunca...